sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Mito Vivo




A importância do "mito vivo"
Há mais de meio século, os eruditos ocidentais passaram a estudar o mito
por uma perspectiva que contrasta sensivelmente com a do século XIX, por
exemplo. Ao invés de tratar, como seus predecessores, o mito na acepção usual
do termo, i. e., como "fábula", "invenção", "ficção", eles o aceitaram tal qual era
compreendido pelas sociedades arcaicas, onde o mito designa, ao contrário,
uma "história verdadeira" e, ademais, extremamente preciosa por seu caráter
sagrado, exemplar e significativo. Mas esse novo valor semântico conferido ao
vocábulo "mito" torna o seu emprego na linguagem um tanto equívoco. De fato,
a palavra é hoje empregada tanto no sentido de "ficção" ou "ilusão", como no
sentido — familiar sobretudo aos etnólogos, sociólogos e historiadores de
religiões — de "tradição sagrada, revelação primordial, modelo exemplar".
Insistiremos mais adiante (cf. capítulos VIII e IX) na história dos diferentes
significados de que se revestiu o termo "mito" no mundo antigo e cristão. Todos
sabem que, desde os tempos de Xenófanes (cerca de 565-470) — que foi o
primeiro a criticar e rejeitar as expressões "mitológicas" da divindade utilizadas
por Homero e Hesíodo — os gregos foram despojando progressivamente o
mythos de todo valor religioso e metafísico. Em contraposição ao logos; assim
como, posteriormente, a história, o mythos acabou por denotar tudo "o que não
pode existir realmente". O judeu-cristianismo, por sua vez, relegou para o campo
da "falsidade" ou "ilusão" tudo o que não fosse justificado ou validado por um
dos dois Testamentos.
Não é nesse sentido — o mais usual na linguagem contemporânea — que
entendemos o "mito". Mais precisamente, não é o estádio mental ou o
momento histórico em que o mito se tornou uma "ficção" que nos interessa.
Nossa pesquisa terá por objeto, em primeiro lugar, as sociedades onde o mito é
— ou foi, até recentemente — "vivo" no sentido de que fornece os modelos para
a conduta humana, conferindo, por isso mesmo, significação e valor à existência.
Compreender a estrutura e a função dos mitos nas sociedades tradicionais não
significa apenas elucidar uma etapa na história do pensamento humano, mas
também compreender melhor uma categoria dos nossos contemporâneos.
Para nos limitarmos a um exemplo, o dos cargo cults da Oceania, seria
difícil interpretar toda essa série de atividades insólitas sem nos referirmos à sua
justificação pelos mitos. Esses cultos proféticos e milenaristas proclamam a
iminência de uma era fabulosa de abundância e beatitude. Os indígenas voltarão
a ser os senhores de suas ilhas e não mais trabalharão, pois os mortos
retornarão em magníficos navios carregados de mercadorias, iguais às cargas
prodigiosas que os Brancos recebem em seus portos. Eis por que a maioria
desses cargo cults exige, por um lado, a destruição dos animais e utensílios
domésticos e, por outro, a construção de amplos depósitos onde serão
armazenadas as provisões trazidas pelos mortos. Um dos movimentos profetiza
a chegada de Cristo a bordo de um navio cargueiro; outro aguarda a vinda da
"América". Uma nova era paradisíaca terá início e os membros do culto se
tornarão imortais. Alguns cultos implicam igualmente atos orgiásticos, pois as
proibições e costumes sancionados pela tradição perderão sua razão de ser,
dando lugar à liberdade absoluta. Ora, todos esses atos e crenças são explicados
através do mito da destruição do Mundo, seguido de uma nova Criação e da
instauração da Idade de Ouro, mito ao qual retornaremos mais tarde.
Fenômenos similares ocorreram no Congo, em 1960, por ocasião da
independência do país. Em algumas aldeias, os indígenas retiraram os tetos das
casas a fim de dar passagem às moedas de ouro que seus ancestrais fariam
chover. Em outras partes, em meio ao abandono geral, somente os caminhos
que conduziam aos cemitérios foram conservados, a fim de permitir que os
ancestrais chegassem à aldeia. Os próprios excessos orgiásticos tinham um
significado, pois, segundo o mito, ao despontar da Nova Era, todas as mulheres
pertencerão a todos os homens.
Tudo indica que fenômenos desse gênero tendem a tornar-se cada vez
mais raros. Supõe-se que o "comportamento mítico" das antigas colônias
desaparecerá depois que adquirirem sua independência política. Mas, o que irá
suceder num futuro mais ou menos distante não nos ajudará a compreender o
que se passou. O que antes de mais nada nos interessa é captar o sentido dessas
estranhas formas de conduta, compreender a causa e a justificação desses
excessos. Compreendê-las equivale a reconhecê-las como fenômenos humanos,
fenômenos de cultura, criação do espírito — e não como irrupção patológica de
instintos, bestialidade ou infantilidade. Não há outra alternativa: ou nos
esforçamos por negar, minimizar ou esquecer tais excessos, considerando-os
casos isolados de "selvageria" destinados ao total desaparecimento depois que
as tribos se tiverem "civilizado", ou fazemos o necessário esforço para
compreender os antecedentes míticos que explicam e justificam tais excessos,
conferindo-lhes um valor religioso. Esta última atitude é, a nosso ver, a única que
merece consideração. Somente quando encaradas por uma perspectiva
histórico-religiosa é que formas similares de conduta poderão revelar-se como
fenômenos de cultura, perdendo seu caráter aberrante ou monstruoso de jogo
infantil ou de ato puramente instintivo.

Mircea Eliade, in, Mito e Realidade.