sexta-feira, 21 de março de 2014

Porto no peito


Os filhos crescem, as mães não.
Eu vejo meus filhos sempre por ai,
Ainda crianças,
Correndo brincando, sorrindo, caindo, chorando, levantando.
São pequenas Larissinhas,
Com enormes olhos brilhantes,
Curiosos, felizes, felizes
Olhos verdes, azuis, castanhos,
    Estas outras menininhas
       me olham e sorriem...
Talvez me vejam um pouco mãe também
No entanto são sempre A minha Larissinha,
Que canta na apresentação da escola:
“ – Como é bom ser criança,
Ficar na barriga, e depois nascer”...
Os Arielzinhos são mais corporais,
Tem cabelinho loiro, e olhos que não se cessam de buscar o novo
Correr, subir, descer,
Contestar e convencer seduzindo
O Ariel ama com os braços,
Abraça com suas mãos poderosas,
Ama fazendo, construindo,
Em silêncio, de preferência em silêncio.
Se movendo. Sendo,
Passos largos, pausas longas,
Riso alto e bom, ( como o avô)
Eles são assim, um certo jeito,
Anjos feitos,
Perto de mim,
Aportados no peito...

Maelida
 


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Por que menti para o carteiro?



Segunda de tarde. Fazia sol, mas o tempo estava frio. Logo é natal. Decido pegar minha bicicleta e ir comprar os presentes para os bebês da família em uma loja situada em um bairro desconhecido da cidade. Procuro o caminho rapidamente no Google Maps e saio de casa sem mais hesitar. Já saindo do centro me perco. Peguei um caminho estreito e de terra batida que beirava alguns jardins comunitários. Parado, num canto dessa trilha, um homem com uns 50 anos de idade me disse um “Bonjour” meio estranho. Como sempre me ensinaram, baixei a cabeça e continuei minha estrada sem dizer nada. Logo me dou conta que o caminho não estava me levando ao bairro desconhecido, mas sim à uma auto-estrada. “Merde! Tenho que dar a volta e passar na frente do senhor do 'bonjour' de novo!”. Dou a meia-volta e passo novamente na frente dele. Neste momento baixo ainda mais minha cabeça, evitando o olhar deste possível assassino estuprador de mulheres.

Minha mãe me ensinou: quando você estiver perdida, siga o fluxo! Foi graças a estes sábios ensinamentos que eu segui uns caras de colete fluorescente que, de bicicleta, andavam em direção a uma estrada que, finalmente, me levou ao bairro desconhecido.

Estrada principal, bairro desconhecido. Sabia que, em algum momento, teria que virar à direita e que, algumas centenas de metros depois, eu encontraria um parque. Viro à direita. Pedalo, pedalo, nada de parque. Zona industrial, quase deserta. Homens, homens, homens, as únicas pessoas que via eram homens. Impossível de pedir informações: a noite está chegando, estou perdida, este bairro está vazio. Perigo! perigo!, penso...

De repente, vejo uma caminhonete dos Correios. O Carteiro sai de um prédio. Eu pergunto a ele: “Por gentileza, o senhor saberia onde se encontra a loja para comprar os presentes para os bebês da família?”. “Não sei, vou perguntar no prédio se alguém sabe”. Alguns instantes depois: “A loja fica ao lado do Hipermercado do bairro desconhecido”. Explico ao Carteiro que o bairro desconhecido é, para mim, desconhecido e que eu não faço idéia de onde ir para achar o Hipermercado. Ele me dá algumas indicações sobre como encontrar meu caminho. Eu agradeço mas, antes que eu volte à estrada, ele pergunta: “Você tem um sotaque diferente... Você é Alemã ou Holandesa?”. Um meio segundo de hesitação e eu respondo: “Alemã”.

Eu gostaria de poder descrever tudo o que veio à minha cabeça durante esse meio segundo: o grupo de homens que me agrediram em Paris, tendo percebido que minha amiga e eu éramos estrangeiras. A vida quotidiana e seus comentários: “Brasileira? Então dança um samba aí pra mim”. “Brasileira, então você usa calcinhas fio-dental, né?”. “Brasileira? Ou será que eu deveria dizer 'Brasileiro' [os Franceses têm um estereótipo que “diz” que os Brasileiros são transexuais]?”. “Como assim Brasileira, você é branca!”. Quase de noite, sozinha, rua, deserto, homem desconhecido, pergunta sobre minha nacionalidade. Não, não posso dizer a verdade. “Alemã”, sorriso. E o medo, sempre o medo, só que agora era o medo de ele me falar em alemão. Sim, faço um curso de alemão, mas qualquer germanófono reconheceria meu nível de principiante desde a minha primeira frase.

Ele me responde, com um grande sorriso nos lábios: “Que legal, eu estou aprendendo alemão, mas é uma língua muito difícil...”. Sorrio, aliviada e, colocando os pés nos pedais da bicicleta: “Verdade, não é fácil”. O senhor me diz: “Mas eu imagino que, para você, falar francês também não seja fácil...”. Resposta automática: “De fato, não é simples. Eu agradeço pela informação, tchau”.

Coração partido, acabei de ser mal educada. Mas eu não podia arriscar, muito perigoso, o perigo está por todos os lados. Sigo meu caminho, olhando pra trás de vez em quando, para ter certeza de não estar sendo seguida. Chegando ao centro do bairro desconhecido, vejo uma senhora voltando pra casa com seus filhos. Ela não fala muito bem francês, mas ela pôde me explicar como encontrar a loja onde comprar os presentes para os bebês da família. Quando encontro mulheres, não preciso mentir.


Post scriptum: Senhor Carteiro, você me pareceu ser uma pessoa honesta e gentil. Eu também estou aprendendo a falar alemão e tenho certeza que dividimos as mesmas dificuldades no aprendizado desta língua. Em um mundo ideal, eu poderia ter falado com o senhor mais alguns minutos, poderíamos ter conversado sobre nossas experiências lingüísticas e falado de algumas banalidades sobre o clima. Escrevo este texto por que ter mentido pra você me deixou envergonhada com a minha mentira, com meus medos, mas principalmente com a nossa sociedade, com os preconceitos em relação às mulheres, aos estrangeiros e também aos homens. 

Entschuldigung

Larissa D.